terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Nossa vida é feita de pequenos nadas

Tás a ver a linha do horizonte? A levitar, a evitar que o céu se desmonte. Foi seguindo essa linha que notei que o mar na verdade é uma ponte. Atravessei e fui a outros litorais. E no começo eu reparei nas diferenças. Mas com o tempo eu percebi, e cada vez percebo mais, como as vidas são iguais. Muito mais do que se pensa. Mudam as caras, mas todas podem ter as mesmas expressões. Mudam as línguas, mas todas têm suas palavras carinhosas e os seus calões. As orações e os deuses também variam, mas o alívio que eles trazem vem do mesmo lugar. Mudam os olhos e tudo que eles olham, mas quando molham todos olham com o mesmo olhar. Seja onde for, uma lágrima de dor tem apenas um sabor e uma única aparência. A palavra saudade só existe em português, mas nunca faltam nomes se o assunto é ausência.
A solidão apavora mas a nova amizade encoraja, e é por isso que a gente viaja. Procurando um reencontro, uma descoberta, que compense a nossa mais recente despedida. Nosso peito muitas vezes aperta. Nossa rota é incerta. Mas o que não é incerto na vida? A vida é feita de pequenos nadas. Que agente saboreia, mas não dá valor. Um pensamento, uma palavra, uma risada. Uma noite enluarada ou um sol a se pôr. Um bom dia, um boa tarde, um por favor. Simpatia é quase amor. Uma luz acendendo, uma barriga crescendo. Uma criança nascendo, obrigado senhor. Seja lá quem for o senhor, seja lá quem for a senhora. A quem quiser me ouvir e a mim mesmo, eu preciso dizer tudo o que eu estou dizendo agora. Preciso acreditar na comunicação, não há melhor antídoto pra solidão. E é por isso que eu não fico satisfeito em sentir o que eu sinto, se o que sinto fica só no meu peito. Por mais que eu seja egoísta, aprendi a dividir minhas derrotas e minhas conquistas. Nada disso me pertence. É tudo temporário no tapete voador do calendário. Já que temos forças pra somar e dividir, enquanto estivermos aqui. Se me ouvires cantando, canta comigo. Se me vires chorando, sorri.
Nossa vida é feita de pequenos nadas.

Gabriel O Pensador

1 comentários:

Vanessa Souza Moraes disse...

Tudo é incerto, quem sabe.

http://vemcaluisa.blogspot.com/